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Com Figuras De Linguagem, Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, “esculpiu” esta sentença:

“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”, insinuando ironicamente que seu romance custou muito (onze contos era grande fortuna na época) e durou apenas enquanto havia dinheiro.

Você verá, neste artigo, essa e outras figuras de linguagem em continuidade ao texto 50 Figuras de Linguagem para “Turbinar” o Seu Texto – Parte 2. Agora veremos as figuras de pensamento.

Figuras de Pensamento

As figuras de pensamento são as figuras de linguagem que, em boa parte dos casos, causam um efeito inesperado entre o que se escreve e o que se quer dizer efetivamente.

Evocam pensamentos e ideias pelo significado que nem sempre se confirma na palavra propriamente dita.

As figuras de linguagem com essas características são:

14- Alusão

15- Antítese

16- Apóstrofe

17- Clímax e Anticlímax

18- Disfemismo

19- Eufemismo

20- Hipérbole

21- Ironia

22- Lítotes

23- Paradoxo

24- Preterição

25- Prosopopeia

26- Reiteração

27- Retificação

Vamos ver cada uma?

14-  Alusão

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Alusão é a menção ou referencia, no texto, a um fato, pessoa ou personagem, real ou fictício, que seja conhecido por todos.

A finalidade dessa referência é exemplificar um episódio e dar-lhe coloridos ou dimensões maiores. Exemplo:

O banhista deparou-se com uma onda que nem Netuno esperava.

Sem a alusão usada no exemplo, que usa a figura mitológica de Netuno, imperador dos mares, o texto ficaria árido e sem o mesmo charme:

O banhista deparou-se com uma grande e inesperada onda.

15-  Antítese

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As figuras de linguagem denominadas Antítese promovem a aproximação de dois termos que apresentam ideias contrárias em um único enunciado, num jogo de palavras que visa a ressaltar tanto o sentido de uma, quanto o da outra. Exemplo:

Se não puderes fazer do sonho uma realidade, faças da realidade um sonho.

Jamais teria o mesmo sentido aprofundado se a antítese, que colocou lado a lado as ideias opostas sonho e realidade, não fosse empregada:

Se não puderes realizar seu sonho, vivas mais intensamente.

16-  Apóstrofe ou Invocação

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Apóstrofe (ou invocação), como bem diz o nome em parênteses, é um chamamento enérgico dentro do discurso a um ser, ou real, ou imaginário, ou personificado, com a intenção de enfatizar sentimentos e ideias que se quer transmitir. Exemplo:

Ao ver o pássaro apanhar um dos pintinhos de seu galinheiro, Josué, com o rosto vermelho e desfigurado, desabafa: ‘Gavião! Ô ave maquiavélica e sorrateira!’

A manifestação explosiva do personagem deixaria de ter a mesma força sem a apóstrofe, que invocou o nome do gavião:

Ao ver o pássaro apanhar um dos pintinhos de seu galinheiro, Josué, com o rosto vermelho e desfigurado, disse que o gavião era uma ave maquiavélica e sorrateira.

17-  Clímax e Anticlímax

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Clímax (ou gradação): é a figura de linguagem que consiste no emprego de termos ou expressões que produzem intensidades gradativas no significado.

Cria assim um efeito estilístico que potencializa o significado da mensagem que se pretende transmitir. Exemplo:

O lampejo dos teus olhos atravessa-me a pele, os ossos, os órgãos, a alma.

Anticlímax: é o oposto do clímax.

Leia também:
50 Figuras de Linguagem para "Turbinar" o Seu Texto - Parte 1

Ele visa a mostrar ao interlocutor que o próprio criador da mensagem deu uma dimensão maior ao significado do que realmente precisaria.

Assim o anticlímax, ao fim, atenua o sentido do que se quer dizer. Exemplo:

Cortaram-me a luz. Fiquei sem vida, sem ação, sem energia, sem internet!

Sem o clímax e o anticlímax, a intensidade do significado não sofreria progressão, de modo que seria mais brando:

O lampejo dos teus olhos atravessa-me até a alma.

 

Cortaram-me a luz. Fiquei sem internet!

18-  Disfemismo ou Cacofemismo

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Disfemismo (ou Cacofemismo) é a figura de linguagem que, ao contrário do eufemismo, tem a intenção de tornar a expressão mais desagradável do que é, usando termos pejorativos, ofensivos e degradantes.

Tem o objetivo de chocar ou provocar risos. Exemplo:

Falou-me que sua amiga tinha apenas algumas gordurinhas a mais; entretanto era uma gordalhaça, com um sovaco estragado.

Sem o disfemismo, o efeito humorístico (ou o espanto) desapareceria:

Falou-me que sua amiga tinha apenas algumas gordurinhas a mais, entretanto era muito gorda e com as axilas suadas.

19-  Eufemismo

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Eufemismo é a figura de linguagem que tenta diminuir a parte desagradável usando de palavras ou expressões mais moderadas.

Assim, cria situações de humor, em alguns casos, ou pega o comum e o desgaste de algum termo e lapida-o. Exemplo:

Sua irmã deixou este mundo ontem à noite.

Já frases com palavras nem tanto agradáveis, ou seja, sem o eufemismo, além de soarem ásperas, ficam comuns, simplórias:

Sua irmã morreu ontem à noite.

20-  Hipérbole ou Auxexe

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Hipérbole (ou Auxexe) é um recurso que exagera o sentido de um termo ou expressão com vistas a obter maior expressividade.

Ela pode, em alguns casos, tornar a frase engraçada, dar-lhe mais beleza e, principalmente, intensificar o sentido. Exemplo:

Meu coração bombearia todos os mares ao ver-te sorrir.

Fica evidente que o exagero promovido pela hipérbole deixou o verso mais belo e com um maior alcance de sentido.

Quem ler percebe que o coração do escritor dispara de verdade! Percepção essa que jamais ocorreria sem ela:

Meu coração bate mais forte ao ver-te sorrir.

 

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21.  Ironia ou Antífrase

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A Ironia (ou antífrase) é, das figuras de linguagem, uma das mais significativas.

Ela é a preferida de alguns grandes escritores do quilate de Machado de Assis, José Saramago, entre outros.

É empregada, na prática, com ideias contrárias às que se quer dizer efetivamente.

E como o leitor vai entender o que o escritor está querendo dizer, se está dizendo o contrário?

Pode ser por meio do contexto mostrado na própria frase ou no restante do texto.

O leitor precisará, sobretudo, do conhecimento de mundo que possui, isto é, todo o seu aprendizado pra “desvendar” o que está sendo dito de fato.

É usada com objetivos diversos: provocar humor, manifestar menosprezo, criticar ou zombar de alguém ou de uma situação sem necessariamente dar mostras de que isso está sendo feito.

Ela é ainda mais potente quando não é entendida no momento em que é proferida, deixando um “rastro de destruição”, isto é, os seus efeitos prum momento posterior.

Vejamos um exemplo apresentando o contexto na própria frase:

Apesar das inúmeras picadas de insetos, da falta de higiene e da precariedade de tudo, amei acampar. Pretendo ir mais vezes, pelo menos uma vez a cada década.

Agora, vamos observar um exemplo que, pra ser entendido, exige o conhecimento de mundo do leitor:

Soares olhava Camilo com a mesma ternura que um gavião espreita uma pomba. (Machado de Assis)

Os exemplos além de passarem a mensagem (que é o contrário do que está escrito), alcançaram um efeito muito maior, que a ausência da ironia nunca obteria.

Eles ficariam mais ou menos assim:

Não gostei de acampamentos e pretendo raramente voltar a fazê-los.

 

Soares olhava Camilo com olhar de fúria.

22.  Lítotes

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Lítotes é simples apesar do nome: ela é afirmação de algo por meio da negação do seu oposto.

Ela tem duas funções em princípio:

  • enfatizar o que está sendo dito
  • mostrar que aquele que fala tinha expectativas contrárias ao que está dizendo

Mesmo sem percebermos, usamo-la a todo instante na fala. Exemplo:

Rogéria era prendada, educada, tinha grandes virtudes e não era feia.

Sem a lítotes, a frase deixaria de colocar em destaque o fato de Rogéria ser, além de tudo, bonita.

Também não manifestaria que aquele que havia escrito tinha a expectativa de que ela fosse feia, uma vez que Rogéria já reunia tantos atributos:

Rogéria era prendada, educada, tinha grandes virtudes e era bonita.

23.  Paradoxo ou Oximoro

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O paradoxo (ou oximoro) é a utilização de ideias contrárias na descrição de um mesmo objeto.

O efeito, na prática, é de uma expressão absurda dita por um louco, pois um termo anularia o outro.

Mas quando analisados em outra esfera de significação, percebemos que faz sentido e é coerente.

O paradoxo objetiva ampliar a significação do que está sendo dito. Exemplo:

No milímetro que nos separa, cabem todos os abismos. (Carlos Drummond de Andrade)

Está bem claro aqui que o uso da figura de linguagem dilatou o sentido do verso absurdamente.

Com o objetivo de contrariar a expectativa de seu interlocutor, que acreditava que havia proximidade entre este e o autor do verso, o poeta mostrou, por meio do paradoxo, que havia enorme distância na verdade.

Seria impossível conseguir esse efeito sem o paradoxo, porquanto essa expectativa nem viria à tona:

Entre nós há a distância de muitos abismos.

Observação: paradoxo e antítese são habitualmente muito confundidos, mas na essência são distintos.

Se analisarmos bem, veremos que o paradoxo usa ideias contrárias, referindo-se a um mesmo ser, enquanto a outra refere-se a seres distintos. Vejamos:

Ele anda e eu corro (antítese), porém corro sem sair do lugar! (paradoxo)

Na primeira sentença, as ações andar e correr referem-se a duas pessoas diferentes: a “ele” e a “mim”, por isso, é uma antítese.

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Na segunda, as duas ações correr e não sair do lugar referem-se a uma só pessoa: a “mim”, por isso, é um paradoxo.

24.  Preterição ou Paralipse

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Preterição (ou paralipse) é um recurso estilístico que coloca uma voz em conflito na frase, alegando não afirmar o que já está sendo dito.

Costuma ser usada para desviar o foco do assunto ou diminuir as impressões geradas no leitor a respeito daquele que fala. Exemplo:

Pra algumas pessoas eu nem gosto muito de falar que estudei no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e que falo cinco idiomas.

Sem a preterição, o interlocutor da frase poderia parecer um tanto pretensioso e, dependendo do contexto, arrogante:

Estudei no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e falo cinco idiomas.

25.  Prosopopeia ou Personificação

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Prosopopeia (ou personificação) é a figura de linguagem que atribui modos de agir ou atributos de um ser animado a um inanimado (ou de um ser inanimado a um animado).

Ela é usada com o intuito de revelar sensações ou um estado de espírito daquele que a usa, gerando intensificação no sentido. Exemplo:

As espadas gaulesas bebiam sangue fresco a todo o instante.

Sem a prosopopeia, o autor, além de tirar a beleza da construção engenhosa, também deixaria de insinuar que existia a vontade de matar, já que aquele que bebe geralmente tem sede:

As espadas gaulesas viviam cobertas de sangue fresco.

26.  Reiteração

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Reiteração é a figura de linguagem que se vale de termos equivalentes pra repetir algo já dito, dando mais harmonia, estilo e coesão ao texto. Exemplo:

Da água existente no planeta, noventa e sete por cento não são potáveis, porque estão nos mares. Apesar disso, ninguém se preocupa em preservar o líquido.

O período ficaria sem charme se fosse construído sem reiteração:

Da água existente no planeta, noventa e sete por cento não são potáveis, porque estão nos mares. Apesar disso, ninguém se preocupa em preservá-la.

27.  Retificação

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Retificação nada mais é do que fazer uma correção intencional, é claro, do que foi dito, com o propósito de transmitir, seja opinião, seja mensagem, seja mais segurança e firmeza nas palavras.

Algumas expressões acompanham essa figura, tais como: “ou melhor”, “melhor dizendo”, “digo”, “na verdade” e outras similares. Exemplo:

Patrícia só queria ser mãe. Só mãe não, a melhor mãe do mundo.

A utilização da retificação trouxe mais ênfase à informação, o que jamais ocorreria sem ela:

Patrícia só queria ser a melhor mãe do mundo.

Conclusão (Figuras de Linguagem 3)

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Você viu neste artigo mais 14 das 50 figuras de linguagem que prometi trazer em 4 artigos sobre o assunto. Estas aqui:

14- Alusão

15- Antítese

16- Apóstrofe

17- Clímax e Anticlímax

18- Disfemismo

19- Eufemismo

20- Hipérbole

21- Ironia

22- Lítotes

23- Paradoxo

24- Preterição

25- Prosopopeia

26- Reiteração

27- Retificação

Como você percebeu, o uso delas aprimora substancialmente um texto.

Agora, a partir desse conhecimento, você terá um grande diferencial, na hora de escrever, em relação a quem desconhece essas incríveis ferramentas.

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A continuação desta série está neste artigo: 50 Figuras de Linguagem para “Turbinar” o Seu Texto – Parte 4. Lá veremos as figuras de construção.

Finalizando, veja abaixo as figuras de linguagem empregadas em diversas canções. Até o próximo artigo!

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Sobre o autor

É profissional de Letras, especialista em redação e profundo admirador da arte da escrita.

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