Quer saber qual é o segredo de uma boa redação?    
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Saber usar o acento grave para indicar a crase é indiscutivelmente importante para a boa escrita.

Além de mostrar que você domina as técnicas necessárias, também pode evitar ambiguidades catastróficas como esta:

Minha namorada pisou nas fezes do cachorro e ficou cheirando a merda o dia inteiro.

No exemplo, o que o produtor do texto quis dizer que ela ficou emitindo o cheiro durante o dia inteiro.

No entanto a falta da crase induz-nos a interpretar que ela arrancou o sapato, colocou no nariz e fez isso durante o dia inteiro…  😆

Este artigo mostrará não só as três coisas que você precisa saber quando usar a crase como também:

  • O que é exatamente crase (não é o que todo mundo pensa)
  • Quando usar
  • Quando não usar
  • Quando é opcional

Além disso, você verá técnicas e artimanhas sensacionais para saber usá-la em qualquer situação, mesmo quando se esquecer das regras.

Preparado? Então vem comigo!

O que é crase afinal?

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Se o seu professor disse que é o “a” com acento grave, reprove-o!  😆

Se você pudesse olhar a crase com uma visão de raio x, você veria exatamente assim:

Vou aa cidade; Fui aa feira; Entregou aa Maria; Obediência aas leis.

Por quê?

Porque a ela é uma vogal heroína com superpoderes. Para indicar que está transformada, ela coloca um “chapeuzinho”, o assento grave.

Logo ela não é o acento, mas sim a transformação. Esta é a definição de crase: ela é a fusão de duas vogais idênticas.

A principal ocorrência é da preposição “a” com:

1. O artigo definido ou pronome feminino: a, as

a) Exemplo de fusão com o artigo definido feminino “a”:

Refiro-me às damas, não aos cavalheiros.

b) Exemplo de fusão com o pronome demonstrativo “a”:

Dei uma nota de cinquenta à mulher que me atendeu (é a mesma coisa que: Dei uma nota de cinquenta àquela mulher que me atendeu).

2. Os pronomes demonstrativos: aquele, aqueles, aquela, aquelas, aquilo

Àqueles que estão em luto, minhas condolências.

A fusão acontece da seguinte forma:

 

Ir a

+

a cidade

=

Ir à cidade

O verbo “ir” é acompanhado da preposição a

O substantivo “cidade” é acompanhado do artigo a

A fusão das duas vogais forma a crase, indicada pelo acento grave

 

Vamos ver agora as 3 condições necessárias para haver crase.

As 3 condições necessárias para o uso da crase

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Você viu como a crase forma-se. Antes das regras de crase, vamos ver as condições para usá-la.

Ela só acontece:

1- Se a palavra que vier depois for feminina

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Se a palavra depois da crase não for feminina, é impossível haver crase.

Na exceção que há, na qual é possível usar a crase antes de palavras masculinas, ainda assim existe uma palavra feminina implícita antes (você verá mais adiante).

Do contrário, o uso produz erros grotescos como estes:

Pertenço à meu marido”*; “Fui à *.

Essa exigência dá-se porque o único gênero de palavra que pode trazer uma vogal “a” antes de si é o feminino: “a casa”, “a rua”, “a vida”, “a existência” etc.

Leia também:
Por que Você Nunca Acerta o Uso da Vírgula? Saiba Agora e Não Erre Mais!

A palavra masculina traz antes de si a vogal “o” que inviabiliza a contração com a preposição “a”:

Sou grato ao meu irmão pelo presente.

2- Se a palavra que vier depois for feminina e admitir o artigo a

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Não basta a palavra que venha depois ser feminina, é preciso que ela admita o artigo “a”, isto é, venha acompanhada dele.

Há uma regra bem simples para saber se admite ou não.

Na frase “Não irei à cidade nesta semana”, como podemos saber se a palavra “cidade” admite o artigo “a”? Começando uma frase qualquer com ela: “A cidade é linda”.

Não é possível dizer: “Cidade é linda”, logo a palavra admite o artigo.

Se eu trocasse “cidade” por “Parati”, já não o admitiria nem consequentemente a crase: “Parati é linda”.

Por outro lado, se eu colocasse uma informação que deixasse a cidade de Parati especificada, a palavra passaria a exigir o artigo (e aceitaria a crase):

A Parati da feira literária é muito diferente da Parati sem a feira.

3- Se a palavra que vier antes exigir a preposição a

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Há algumas palavras que dependem de uma preposição “a” antes do seu complemento. É possível dizer: “Fumar é prejudicial saúde?”* Ficaria difícil a comunicação, não?

Não dá porque a palavra “prejudicial” requer a preposição “a” para ser completada:

Fumar é prejudicial à saúde?

Por isso, convencionalmente, é impossível haver crase se a palavra que vier antes dispensar a preposição, como neste caso:

Construí a casa dos meus sonhos.

Quem constrói, constrói algo, não a algo. Já o que é prejudicial, é prejudicial a algum ser ou a alguma coisa.

Vamos ver agora um quadro completo que mostra quando se deve usar crase.

Quando utilizar crase

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DEVE HAVER CRASE

1. Antes de palavras femininas que venham acompanhadas do artigo a

“Vou à feira em busca de maçãs”. “Estive presente às comemorações do aniversário de Brasília”.


2. Antes de qualquer palavra que venha acompanhada dos pronomes demonstrativos aquele, aqueles, aquela, aquelas e aquilo

“Disse àquele moço que me ofendeu que não iria revidar”; “Refiro-me àquilo que você disse-me antes”.


3. Antes de palavras masculinas, porém somente quando se puder pressupor uma palavra feminina

“Meu genro fala à carioca” (Fala à moda / à maneira de carioca); “Vou hoje à Globo”. (“Vou hoje à emissora Globo”).


4. Na designação das horas

“Meu tio chegarei à uma hora da tarde na rodoviária”; “Às doze badaladas noturnas, os pirilampos brilhavam”.

Atenção: Se, porém, o termo uma não se referir a horas, não deve haver crase: “Dei meus vinténs a uma velhinha”; “Fui a uma ermida orar”.


5. Nas locuções que mostram uma circunstância, formadas com palavras femininas

“Fique à vontade para me questionar”; “Às vezes penso em desistir da minha carreira”; “Minha cunhada faz tudo às pressas”; “À medida que estudamos, crescemos intelectualmente”.


6. Em expressões formadas por palavras femininas

“À imitação de”; “À maneira de”; “À medida que”; “À noite”; “À proporção que”; “À semelhança de”; “À toa”; “À vista de”; “Às ocultas” etc.


7. Nas palavras casa e terra quando especificadas

“Dirigi-me à casa do meu pai”; “Ainda hoje chegamos à terra de César”.

Atenção: Quando não especificadas, não admitem a crase: “Eu vou a casa”; “Ainda hoje chegamos a terra”.


8. Na expressão à distância de

“O portão fica à distância de quatro metros”; “Já tinha andado à distância de cem quilômetros quando a tragédia aconteceu”.

Atenção: Se a distância de que se fala não for informada, não é preciso usar crase: “Viram-no movendo-se a distância”; “A distância, vi um vulto de mulher”.


9. Quando houver a possibilidade de gerar uma frase ambígua

“Matar Pedro à fome” (Matar Pedro de fome) x “Matar Pedro a fome (Pedro matar a fome); “À luz dos ensinamentos filosóficos” (Baseando-se nos ensinamentos filosóficos) x “A luz dos ensinamentos filosóficos” (O esclarecimento dos ensinamentos filosóficos).


NÃO DEVE HAVER CRASE

1. Antes de palavras masculinas

“Andar a ”. “Pintura a óleo”. “Aulas de piano a domicílio”. “A respeito do aborto, qual é a sua opinião?” “Não assisto a filmes violentos”.


2. Antes do artigo indefinido uma

“Dirijo-me a uma pousada no Rio de Janeiro”; “Pensei que esta encomenda fosse destinada a uma empresa”.


3. Antes de palavras no plural, ainda que femininas (exceto se o a estiver no plural)

“Não obedeço a regras estúpidas”; (“Não obedeço às regras estúpidas”); “O patrão não atende a manifestações de funcionários” (“O patrão não atende às manifestações de funcionários”)


4. Antes de verbos

“Prefiro ficar nesta casa a morar nas ruas”; “Fiquei a contemplá-la extasiado”.


5. Antes de pronomes:

a) Pessoais (incluindo os de tratamento): “Vimos trazer nossos cumprimentos a ela”; “O evento será dedicado a você”.

b) Demonstrativos (exceto a, aquele, aqueles, aquela, aquelas, aquilo): “Não sei responder a essa pergunta”; “Não sei como chegou a essa conclusão com os neurônios que tem.”

c) Indefinidos: “Chegaram vocês a alguma conclusão?”; “A nenhuma pessoa mais entregarei meu coração”.

d) Relativos (exceto: a qual, as quais): “Só entrego convites a quem considero muito”; “Machado de Assis é um escritor a cuja maestria faço justiça”.

e) Interrogativos: “A que hobby se dedicam os filatelistas?”; “A que meios de defesa recorre os pequenos animais assediados por predadores?”


6. Antes de nomes de lugares que são usados sem o artigo

“Voltarei a Cancun quando tiver dinheiro”; “Alberto foi a Roma e enviou-me um cartão postal”.

Dica: para saber se o nome do lugar usa ou não o artigo feminino, basta aplicar a seguinte regra: “Vim de Cancun”. Se, na frase anterior, de não apresenta a contração com o artigo a, não é necessária a crase antes do nome do lugar em questão. Se, ao contrário, houver a contração, o nome do lugar requererá a crase: “Vim da Bahia”. Logo: “Vou à Bahia”.

Atenção: Se o lugar trouxer alguma especificação, passa a ser obrigatória a crase: “Voltarei à Cancun das maravilhosas praias”; “Alberto foi à Roma de Nero”.


7. Em expressões com palavras repetidas (frente a frente, gota a gota, uma a uma, cara a cara etc.)

“Os rivais já se encontravam frente a frente”; “Destilou seu veneno bem lentamente, gota a gota”.

QUANDO O USO DA CRASE É OPCIONAL

1. Antes de nomes próprios de pessoas (femininos)

“Darei, de presente de aniversário, um perfume a Manoela” ou “Darei, de presente de aniversário, um perfume à Manoela”; “A Renata, minha cunhada, deixo um colar de pérolas” ou: “À Renata, minha cunhada, deixo um colar de pérolas”.

Atenção: Prefira usar crase quando houver laços de amizade ou intimidade com a pessoa e evite usá-la quando se tratar de pessoas célebres ou não íntimas.


2. Antes de pronomes possessivos

“Quando chegar lá, entregue este bilhete a minha mãe” ou “Quando chegar lá, entregue este bilhete à minha mãe”; “Um brinde a sua saúde” ou: “Um brinde à sua saúde”.

Atenção: Se porventura estiver no plural, o uso é obrigatório: “A herança acrescentou muita riqueza às minhas posses”; “Fiquei atento às suas recomendações”.

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Técnicas e artimanhas

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Lembrar-se de todas as regras não é tarefa fácil. Por isso, caso você venha a se esquecer de alguma, há “macetes” para tirar a prova se é possível ou não usar a crase.

Só lembrando que essas artimanhas devem ser usadas em último caso, pois elas não são inteiramente à prova de falhas, mas resolvem a maior parte dos casos.

1- Substituição da palavra feminina

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Esse é a conhecida técnica de trocar a palavra feminina que vem após a crase por uma masculina.

Fazendo assim, se aparecer a combinação “ao” antes da palavra, então o emprego da crase é legítimo.

Na frase “Ar benéfico à saúde”, ao trocar a palavra “saúde” (feminina) por “pulmão” (masculina), percebe-se a existência da crase por causa da contração “ao” resultante:

Ar benéfico ao pulmão.

Essa técnica também vale para as expressões. Se a contração “ao” não ficar adequada, não ocorre a crase:

Escrever à mão / Escrever ao lápis.*

Lembrando que essas expressões podem exigir a crase se houver a possibilidade de ambiguidade.

Para assegurar o sucesso dessa técnica, é preciso ter cautela em duas situações:

a) Certificar-se se a palavra feminina que se está querendo averiguar admite o artigo “a”

No exemplo dado antes, da cidade de Parati, não admitia porque essa palavra não vem acompanhada do artigo, logo essa técnica “furaria” nesse caso:

Não irei a Parati nesta semana / Não irei ao Rio de Janeiro nesta semana.

Perceba então que, para essa técnica funcionar, é preciso verificar se a palavra que vem após a crase está acompanhada ou não do artigo.

b) Certificar-se se a palavra masculina que se está colocando no lugar contenta-se somente com o “a”

Preste muita atenção a este segundo caso!

Em algumas situações, a palavra masculina que você escolher para colocar no lugar vai aceitar a contração “ao”, porém ela continuará aceitando somente o “a”.

Veja um exemplo para esclarecer:

Os trabalhadores têm direito a licença / Os trabalhadores têm direito ao descanso semanal.

À primeira vista, o exemplo acima provaria que deveria haver crase no “a”.

Só que não! Na segunda frase, a palavra masculina “descanso” também se satisfaz só com o “a”:

Os trabalhadores têm direito a descanso semanal.

Isso nos prova que no “a” não há crase.

2- Substituição da preposição “a”

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A segunda opção é substituir a preposição “a” por uma destas, que se “encaixe”:

  • para a
  • na
  • pela
  • da

Exemplos:

Jean deu um anel de diamante à Jaqueline / Jean deu um anel de diamante [para a] Jaqueline.

Meu inimigo está à espreita / Meu inimigo está [na] espreita.

Aspiro à primeira colocação / Aspiro [pela] primeira colocação.

Vou assistir às peças da temporada / Vou assistir [das] peças da temporada.

É claro que esses “encaixes” podem provocar uma pequena mudança no sentido, pois nem sempre são preposições genuínas dessas palavras.

Mas em se encaixando, servem para indicar a presença da crase. O que não aconteceria de forma alguma se não houvesse a crase:

Jean deu um anel de diamante a ela / Jean deu um anel de diamante [para a] ela.

Meu inimigo está a me contemplar / Meu inimigo está [na] me contemplar.

Aspiro a vencer / Aspiro [pela] vencer.

Vou assistir a todas as peças da temporada / Vou assistir [das] todas as peças da temporada.

Como você pode ver, são técnicas impagáveis para quem está em uma grande dúvida sobre quando usar crase.

Últimas palavras (Quando usar a crase)

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Como você pôde perceber, o fenômeno crase foi “dissecado” neste artigo.

Você viu que crase não é o acento indicativo da crase, mas sim uma união entre duas vogais “a”.

Que as três condições necessárias para que haja essa fusão são:

  • A palavra que vier após a crase obrigatoriamente tem de ser feminina
  • A palavra feminina precisa vir acompanhada do artigo “a”
  • A palavra que vier antes da crase precisa exigir a preposição

Também vimos um quadro completo com todas as possibilidades, tanto para os casos de obrigatoriedade quanto para os facultativos.

Além disso, vimos técnicas “ninja” para verificar, em caso de esquecimento de uma regra, a possibilidade ou não de ocorrer o fenômeno.

Não deixe de aplicar essas regras e técnicas em seus textos!

→ Por falar nisso, para aprimorá-los ainda mais, não deixe de ler o artigo “Como fazer uma boa redação sem truques” clicando aqui!

Termino esse post com a sensação de missão cumprida, com a certeza de que transmiti um conteúdo que será realmente útil a você.

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Abração!

Referências:

  • ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática metódica da língua portuguesa. 46 ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
  • BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2009.
  • CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
  • LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 42 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
  • NETO, Pasquale Cipro; INFANTE, Ulisses. Gramática da língua portuguesa. 3 ed. São Paulo: Scipione, 2008.
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Sobre o autor

É profissional de Letras, especialista em redação e profundo admirador da arte da escrita.

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